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Uma pequena história dos 25 anos de Aikido na UnB

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360º é diferente de 0º

Marcelo Braga*

 

Há algum tempo, era comum ouvir a frase “dar um 360º na vida” quando se queria expressar a ideia de se realizar uma grande mudança. Para a geometria, o correto seria dizer “dar um 180º ” o que corresponderia a realizar uma guinada na direção oposta, configurando uma mudança plena. Enquanto, realizar uma volta de 360º significa dizer que a pessoa andou, andou, andou e retornou para o mesmo ponto. No entanto, 360º não é igual a 0º, pois carrega consigo a experiência de 359º percorridos nesta jornada

Um dos princípios marciais que merece destaque é “Nunca perca o seu espírito de iniciante”, de forma que o progresso dentro do BUDO ( 武道 –“caminho marcial”) é cíclico de forma que, por vezes, nos vemos retornando ao ponto de partida, porém, trazendo conosco a experiência da caminhada. Como a saga da faixa. Antigamente, não se utilizava as faixas coloridas separadas em kyu, de forma que se usava apenas a faixa branca e a preta. O uso prolongado da faixa branca faz com que ela se encarda e escureça ganhando um tom amarronzado, assim como o uso prolongado da faixa preta faz com que ela se desbote e embranqueça.

A jornada cíclica consiste em três etapas: Pensar, raciocinar e fluir. Durante a primeira etapa, a etapa da forma, pensamos demais e, por vezes, sobre coisas alheias ao DOJO (道場 –“Lugar do Caminho”, local de treino). Pensamos em como mover os pés, onde colocar as mãos e, displicentemente, criticamos a razão de certos comportamentos. Nesta fase de pensamentos dispersos, para nós, um golpe é apenas um golpe.

Na segunda etapa, já superamos o embaraço de aparentemente não termos consciência e controle corporal. Já decoramos como cada membro deve se comportar diante de determinada situação, o corpo passa a obedecer mais a mente e passamos a acrescentar técnica à forma. É a técnica quem predomina nesta fase do treinamento. Deixamos de ser meros repetidores e nos tornamos estudantes. A inteligência marcial começa a florescer. Conseguimos experimentar diversas maneiras de executar um mesmo movimento, percebemos novos pontos de desequilíbrio e ganhamos condições de reduzir o choque e até anulá-lo. Aqui, busca-se a perfeição em cada execução, cada técnica precisa ser eficaz e sem folgas. Em contra partida também não temos mais a tolerância que recebíamos de nossos colegas e mestres quando dos nossos primeiros passos. Assim, um golpe não é mais apenas um golpe.

A terceira etapa se caracteriza pela fluidez e simplicidade. Os grandes mestres de suas artes executam as técnicas mais complexas com a mesma simplicidade de se caminhar para frente. Aqui, não mais se pensa nem se raciocina. Simplesmente se faz, não obstante, com maestria. Esta espontaneidade, porém, é fruto de exaustivas repetições. O filósofo e grande mestre Bruce Lee uma vez disse: “Eu não tenho medo do homem que treinou dez mil chutes diferentes. Eu tenho medo do homem que treinou um mesmo chute dez mil vezes”. De modo que a fluidez não é um dom, mas uma conquista ao preço de perseverança e, por vezes, dor. Para se fluir, não se pode pensar, ou seja, tentar antecipar o ataque tentando adivinhá-lo. Manter-se calmo faz com que as ferramentas acumuladas ao longo do treinamento ajam no momento certo. Este é um estágio para quem não se estagnou ou desistiu. Quem se contenta com os estágios anteriores, perdeu o seu primeiro amor: aquele entusiasmo quase infantil e a sede por conhecimento sentidas nas primeiras aulas. O apóstolo Paulo disse algo nesta linha de raciocínio: “Se alguém julga saber alguma coisa, com efeito, não aprendeu ainda como convém saber” (Bíblia Sagrada, I CO. 8:2).

Resumindo esta caminhada cíclica:

“Para um iniciante um golpe é apenas um golpe. Para um graduado um golpe não é apenas um golpe. Para um mestre um golpe é apenas um golpe.”

 

*Praticante de Aikido pela Aizenkai.


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aizenkai.