Especificidade das relações que se formam na prática de Aikido

 


Quem já treinou outra arte marcial ou esporte de luta provavelmente percebeu que as relações que se formam dentro de um grupo de aikido tendem a ser diferentes daquelas que tiveram na arte ou esporte anterior.


O objetivo deste texto é justamente abordar a natureza dessas relações que a prática do aikido promove entre os praticantes, e porque tais relações surgem. Para tanto, alguns aspectos do aprendizado de aikido serão abordados. São eles ausência de competição, kata a dois, contato físico, busca da não violência.


De início, o aikido não tem competição. Não existe um confronto entre praticantes para ver quem é o vencedor. Quando existe competição, há um estímulo para vencer, usado para incentivar o esforço do praticante: a vitória é uma recompensa pela dedicação ao treino.


Porém, quando se quer vencer, é preciso surpreender o adversário, treinar fintas, esconder intenções, habilidades, fraquezas e forças, até mesmo dentro da academia, pois, às vezes, o maior rival é o colega de treino. Sem a competição, tais rivalidades perdem o sentido. Não é necessário driblar o parceiro para vencê-lo se não há disputa.


Outro aspecto é que o treino se faz por kata, uma sequência pré-determinada de movimentos. No caso do aikido, os kata são a dois, com um fazendo o papel do atacante (uke), e o outro fazendo o papel do atacado (tori ou nage). É como um teatro, no qual cada praticante representa uma personagem (nage e uke).


Em regra, o uke é imobilizado ou jogado pelo tori. Pode-se pensar nisso como uma derrota do uke ou vitória do tori, mas quem perde ou ganha é a personagem, não o ator que a interpreta, até porque, depois de algumas repetições, os papéis são trocados, e quem “perdeu” vai “ganhar” e vice-versa.


No kata, os dois atores já sabem de antemão o que cada personagem vai fazer, mas a boa interpretação exige que finjam não saber (uke e tori não sabem). É preciso desempenhar com sinceridade e boa vontade o seu papel para o que o treino seja proveitoso e o kata fique bem feito. Isso inclui não só conhecer bem seu papel, mas adaptá-lo ao colega, de uma forma que ele também consiga fazer a sua parte, e os dois possam treinar bem a técnica expressa no kata.


Adaptar-se ao colega significa, inclusive, aliviar um pouco a própria execução. Um grande mestre que ataque com o máximo de sua habilidade um principiante não dá a este a oportunidade de treinar a defesa. À medida que este mesmo principiante vai evoluindo, o mestre pode aumentar gradativamente a intensidade do ataque, incentivando o parceiro a se desenvolver. O mesmo se dá na defesa: se o ataque não é tão bom assim, não precisa imobilizar ou jogar com tudo, de uma forma que ponha em risco um atacante que ainda não sabe descer ou cair. Porém, à medida que o nível técnico da defesa do parceiro aumenta, pode-se fazer um ataque mais intenso. Da mesma forma, se o parceiro atacante melhora, pode-se fazer a defesa mais intensa. Isso significa que a evolução de um praticante é oportunidade de progresso para o outro.


No entanto, como o treino não tem luta ou sparring, existe uma tentação de resistir e testar o parceiro. Ora, precisamente porque o treino é em kata, com forma preestabelecida, um já sabe o que o outro vai fazer, de modo que é fácil sabotar o parceiro, “mostrando a ele que o movimento dele não funciona em você”. Contudo, quando se faz isso, além de sabotar o parceiro, o aikidoca sabota a si mesmo, já que não está treinando corretamente o seu papel. É que há aikido tanto no papel do tori quanto no do uke; os dois papéis fazem parte do aprendizado e trazem ensinamentos.


Mais um ponto: embora o aikido não seja uma arte de intenso contato, como o judô ou o jiu-jitsu, existe um contato corporal constante. Se, em algumas técnicas, o uke segura o tori, em outras, ele ataca de longe, mas, ao se defender, o tori segura e imobiliza ou arremessa o uke.


Em regra, o aikidoca vai pegar o parceiro, seja no ataque, seja na defesa, e quanta informação se transmite através de uma pegada! O corpo sente ao pegar e ao ser pegado. Sentimos se o parceiro está seguro, se está apressado, nervoso, ou, ao contrário, se teve um dia maravilhoso. Sente-se não só como o parceiro está naquele momento, mas, além disso, a personalidade.


Com efeito, cada um se mostra com sinceridade no movimento. Mesmo aquilo que se busca esconder, dos outros ou de si mesmo, se revela. A experiência permite ver quem é afobado, impaciente, possessivo etc. Por sua vez, ver os outros abre uma janela para si olhar a si mesmo. “Fulano agarra com tanta força, parece inseguro, precisa ter certeza de que vai segurar… epa, eu também seguro forte, será que sou inseguro também?”


Esse olhar para o que é humano no outro e em si, que o aikido possibilita, é também uma necessidade para aprimoramento da arte. As técnicas do aikido foram pensadas com uma determinada finalidade. São desenhadas para não agredir o parceiro. Se existe desejo de violência no íntimo do praticante, mesmo que de forma inconsciente, isso vai aparecer no movimento, e atrapalhar a execução da técnica, já que ela, pensada para a paz, precisa ser executada com este sentimento pacífico (visto que o sentimento se manifesta no movimento).


O caminho é de mão dupla, é um diálogo. Se o sentimento influencia o movimento, o movimento também influencia o sentimento. Quem não fica alegre dançando uma música divertida, ou relaxado após uma massagem?


Vejamos, então, ações que podem surgir quando uma agressão é iminente (e, a seguir, que sentimentos acompanham essas ações):


1. Fugir;


2. Não fugir:


    2.1. Bater antes;


    2.2. Não bater antes:


      2.2.1. Apanhar sem reagir;


      2.2.2. Apanhar e bater de volta.


Por trás dessas reações, geralmente estão o medo e a raiva. Temos medo de sentir dor, assim como sentimos raiva daquilo que causa dor. Ou seja, a dor causa tanto medo quanto raiva. O medo prepondera em 1 e 2.2.1, e a raiva em 2.1 e 2.2.2. Claro, é possível que se faça uma análise racional da situação e se decida por uma dessas ações, sem medo ou raiva, mas não parece ser o que normalmente acontece.


Medo e raiva causam estresse, e nós nos acostumamos a reagir de certa forma diante do estresse, de modo que essa reação já se torna automática, mas o treinamento de aikido simula a situação estressante de ser atacado, e ensina outro tipo de reação.


Contudo, o aikido busca ir além: nem fugir nem bater (sim, existe o atemi, mas não vou abordar este tema agora), mas desviar o ataque, evitar a dor para si, sem levar dor ao adversário. Não se trata de aceitar a agressão, mas de evitá-la sem agredir de volta o parceiro. A repetição correta da técnica vai ensinando e internalizando que a não violência funciona. Podemos então desligar o botão da resposta violenta. Não há necessidade de ser bruto, de recorrer à força. Será que medo e raiva ainda fazem sentido? A resposta é não. De uma forma mais básica, podemos senti-los, mas não deixar que medo e raiva controlem nossas ações. Num nível mais profundo, talvez seja possível nem senti-los. Havendo um nível técnico capaz de trazer essa segurança, ela também vai aparecer no movimento de resposta, calmo e pacífico.


No entanto, tal nível técnico (capaz de provocar essa mudança de sentimento e de movimento) requer tempo e treino para ser alcançado, até que uma atividade que parecia estranha passe a ser confortável. Nossas reações estão profundamente enraizadas, é preciso vivenciar algo diferente, várias vezes, até que essa diferença amadureça em nós e comece a se expressar.


Como essa mudança é paulatina, não se vai aprender aikido de uma vez. Melhorar uma coisa hoje faz aparecerem outras fragilidades. Seis meses (ou anos, ou apenas dias) depois, outro avanço, e novas fraquezas expostas, e a espiral continua. É preciso, constantemente, aprender a treinar, continuar estudando e praticando, para melhorar nossas atitudes diante do estresse, da dor, do medo, da raiva.


Não é só aprender uma técnica ou um movimento; é também desaprender aquelas reações com as quais já nos havíamos acostumados (fugir, apanhar, bater etc). À medida que vamos abrindo espaço dentro de nós mesmos, tirando o entulho, o aikido pode se expandir. Aprender é se abrir para o conhecimento, que vêm de dentro, aquele que percebemos por nós mesmos (embora, a rigor, só se aprenda algo ao percebê-lo por si mesmo), e também de fora, aquele que o professor ou outro parceiro nos mostra ou chama a atenção.


Esse conhecimento, ao qual precisamos nos abrir, e que é sobre nós mesmo, os outros, e até o mundo, se constrói na ajuda mútua, com falhas e virtudes expostas, para todos verem, como um exercício de humildade. O treino é coletivo. Cada um ajuda, se adapta, aceita o colega. Continuamos treinando e aprendendo juntos.


Acredito que acolher e ser acolhido, aprender juntos a reconhecer defeitos e méritos, a ir além da agressividade e da rivalidade, com humildade, sinceridade e boa vontade, tende a gerar relações honestas entre os praticantes.


Miguel Almeida Lima - Aizenkai, 2021.

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aizenkai.